LUGAR CERTO


cada coisa em seu lugar (ou
como fingir se tudo está in limbo)

"Chegou a hora de ler o Ulysses" - Sergio Rodrigues

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abaixo vai o texto do Sergio Rodrigues, publicado em seu blogue sobre o Ulisses, de James Joyce e sua nova tradução. concordo com ele, mesmo eu sendo um cara entusiasta dos enigmas joyceanos no livro. vai o texto:

"CHEGOU A HORA DE LER O ULISSES - MAS SEM STRESS

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK. Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20. Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.” É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível. Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer."

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Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Um (p. 2)

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[a imagem aqui de cima é David Byers Brown que fez uma ilustra para cada canto da Odisseia e se reporta ao Canto I (a de baixo é do canto II).]

essa partezinha do guia aqui é dedicada aos paralelos com a Odisseia de Homero. essa é a parte pra os nerds da literatura, que vão obcecadamente querer encontrar os detalhes.

obviamente, eu mesmo passo longe de dar conta, mas a cada nova leitura, tanto da Odisseia quanto do Ulysses, é possível perceber uma ou outra coisa.

sobre a Odisseia, informações bem gerais:

é uma obra épica (no sentido de gênero), escrita em versos e em grego por (supostamente) Homero, milhares de anos atrás. há um gigantesco arranca-rabo teórico se a Odisseia foi composta oralmente ou não, se Homero existiu ou não, se o livro é uma obra contínua ou um ajuntado de diversos outras pequenas epopeias.

a trama geral é o Ulisseus (ou Odisseu daí Odisseia;  a Eneida é a aventura de Enéas, a Orestia de Orestes e por aí vai) tentando voltar para casa depois de 20 anos longe. Telêmaco está crescido e sua casa foi infestada de usurpadores que pretendem se casar com Penélope, mulher de Ulisses, já que ele pode estar morto. no final ele volta, mata todos os pretendentes e tudo fica bem.

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[Telêmaco bate boca com o povo pedindo ajuda pra botar a casa em ordem; cagaram pra ele.]

alguns estudiosos dividem a Odisseia em pequenas aventuras aventuras menores, miniepopeias: Telemaquia, Ulisses contando sua história, Descida aos infernos, retorno à Ítaca... elas variam conforme o estudioso, mas a tal da Telemaquia é meio sucessinho e sempre tá por ali. ela trata das aventuras de Telêmaco em busca de seu pai, Ulisses, nos 4 primeiros cantos do livro.

(a divisão da Odisseia que chegou até nós é de 24 cantos. a ideia de canto é pela apresentação oral dos versos da epopeia e pelo seu ritmo dado pelo tipo de verso: hexâmetro datílico (ahn?)

eu explico: um hexametro são 6 (hexa) pés métricos. um pé métrico são 3 sílabas poéticas. o datílico é o tipo de pé métrico. o que faz um pé métrico mudar em relação ao outro é a ordem das sílabas poéticas, que se dividem em dois grupos: longas e breves.

ué, mas as sílabas não são fortes (tônicas) ou fracas (átonas)?

em português, sim. pois nosso idioma não usa o recurso da duração vocálica para criar sons significativos. por exemplo, sabiá, sabia e sábia diferem em onde está o acento tônico, ou seja, em qual é a sílaba mais forte.

no grego (são diversos dialetos usados na Odisseia, mas serei irresponsável e chamarei tudo de 'grego') de Homero, as sílabas não tem tonicidade, tem duração. num exemplo bem tosco, é como se dizer que sabiá significasse uma coisa diferente de sabiááá.

e a alternância entre vogais longas e breves constitui o ritmo do texto em grego - o latim também é assim.)

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no primeiro capítulo do Ulisses, Buck Mulligan tira um sarro do nome do Dedalus, um nome absurdo, já que grego, mas o dele, Malachi Mulligan, também são dois dátilos, que veja você, é o pé métrico usado na odisseia homerica. rá. que piadinha pra nerd, hein? (eu avisei lá em cima).

há também uma citação em grego no meio do texto ' Epi oinopa ponton', que é usada para descrever o mar para onde Dedalus e Mulligan olham, que também está na Odisseia.

Joyce dividiu seu livro em 3 partes: Telemaquia, Odisseia e Nostos. Telêmaco é Stephen Dedalus, Leopold Bloom o Ulisses e Molly Bloom é Penélope. os três primeiros capítulos são a telemaquia joyceana.

o usurpador do filho, que são os pretendentes em Homero, em Joyce são Buck Mulligan, a coroa inglesa perante a Irlanda e a igreja católica diante do ceticismo de Dedalus. "- Eu sou criado de dois senhores, Stephen disse, um inglês e um italiano." (p. 120)

no Ulysses há várias citações a um homem afogado e em Homero muitos aqueus (o povo de Ulisses e Telêmaco) são mortos no mar pela fúria de Poseidon, defensor dos troianos.

Tanto Dedalus quanto Telêmaco tem uma preocupação constante com sua mãe, mas por razões diferentes.

em Joyce não vejo uma representação de Atena, que acompanha Telêmaco o tempo todo na Odisseia. isso quer dizer duas coisas: que eu não vi a referência ou que é mais uma investida na ideia do cotidiano do homem comum e não-heroico (a nova ortografia proíbe esse hífen, mas eu, maloqueiro ortográfico, uso assim mesmo) que terá seu ápice em Leopold Bloom e nesse sentido, é o oposto de Ulisses.

vamos para o segundo capítulo?

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Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Um (p. 1)

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no primeiro capítulo do Ulysses acontece as seguintes ações (fundamental reforçar que este é o tipo de livro que não importa muito as ações, mas sim como elas são contadas; ou seja é uma obra muito mais de linguagem do que de enredo - certo, podemos discutir em teses e mais teses o que é linguagem e o que é enredo, mas acho que isso ilumina um pouco a estrada de letrinhas que percorremos. mas então por que, por São Patrício, tu vai me falar do enredo se ele pouco importa? seilá, imaginei que um GUIA DE LEITURA [coff, coff] como este precisaria conter as ações que criam a cena e... ah, me deixa!):

- Buck Mulligan, um amigo picareta de Stephen Dedalus, sobe no parapeito de uma torre com um pote cheio de espuma de barbear, um espelho e uma navalha. ele e Dedalus passam algum tempo ali, olhando para a baía, enquanto o falastrão do Mulligan... bem, fala muito, e Stephen Dedalus, o mala, fica ali sofrendo as dores do mundo. Dedalus se dá por ofendido por algo que Mulligan disse-lhe um tempo atrás. comentam sobre um inglês, Haynes, que está com eles na torre (que á alugada).

- descem, uma fritura enche a cozinha de fumaça, conversam, chega a velha que vende leite, eles comprarm e ficam devendo um tanto.

- Mulligan descobre que Dedalus vai receber hoje e pede-lhe dinheiro emprestado para beber.

- vão para um pequeno lago nadar. não. Mulligan nada enquanto Haynes tenta conversar com Dedalus, que é um blasé do cão e lhe dá pouca atenção.

- Dedalus, em diversos momentos da narrativa, é atormentado pela lembrança da mãe recém-falecida e por um cavalar sentimento de culpa de não ter orado com ela em seu leito de morte.

- Mulligan conta pra Haynes que Dedalus consegue provar ALGEBRICAMENTE que o neto de Hamlet é o avô de Shakespeare, mas Dedalus, o maleta, se recusa a dar mais informações.

- Dedalus é atormentado pela ideia de estar sendo picaretado por Mulligan. a última palavra do capítulo é "Usurpador."

- o capítulo termina com Dedalus se afastando para ir à escola onde leciona história, e combina de se encontrar com haynes e Mulligan 12h30 para almoço.

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Stephen Dedalus é o personagem principal de outro livro de Joyce, Um retrato do artista quando jovem, e os três primeiros capítulos de Ulysses o tem como protagonista. Boatos fortes dão conta de que ele é um alter ego do próprio James Joyce.

de acordo com as anotações de Joyce, essa cena se passa às 8h da manhã, e há muitas referências à branco e dourado e à teologia, mas não são discussões tão diretas quanto na Montanha Mágica, por exemplo. a cena é narrada ininterruptamente (só pára com as entradas dos pensamentos dos personagens).

quem sou eu pra falar isso, mas acho um capítulo ruim para começar o maior romance do século XX. Afinal, Dedalus é uma criatura soturna e chata, sem o charme literário dos deprimidos e sem a boa vontade dos personagens felizes. Ressalte-se, porém, que essa concepção do personagem está afinada com o livro, mas não é de se admirar que tanta gente desista do livro antes de matar os três capítulos com o Stephen "nuvem negra" Dedalus.

pincei uma frase notável do texto - pelo menos eu acho: "– Você contempla em mim, Stephen disse com amargo desprazer, um horrendo exemplo de livre pensar."

das palavras estranhas citadas:

- Thalata! Thalata!, quer dizer O mar! O mar! teria sido dito por guerreiros gregos quando achavam que nunca voltariam para casa e veem as águas.

- omphalos é o nome que Mulligan dá a torre que vivem. a palavra significa umbigo, mas também é usada para nomear artefatos religiosos de pedra.

- introibo ad altare dei é latim (entrarei no altar de Deus), é o começo da missa católica.

- Chrysostomos quer dizer "dente de ouro".

- Epi oinopa ponton = sobre o mar cor de vinho escuro.

- Liliata rutilantium te confessorum turma circumdet: iubilantium te virginum chorus excipiat - latim, oração para moribundos. algo como "Que a multidão de exultantes confessores adornados de lírios teenvolva; que o coro de virgens jubilosas te dêem as boas vindas".

- Zut! nom de dieu! - é uma imprecaução tipo Desgraça!, Bolas! (hehehehe), Que merda...

- et unam sanctam catholicam et apostolicam ecclesiam = E uma igreja sagrada, católica e apostólica.

na próxima postagem, as relações que achei entre o primeiro capítulo, chamado de Telêmaco, e a Odisseia.

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Leiturosseia do Ulysses: introdução

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todos os comentários que farei da minha leitura do Ulysses são da edição da Penguin - Companhia.

os comparativos com a Odisseia de Homero serão feitos em postagens à parte, porque acredito que haja muito valor no próprio texto joyceano, relegado por conta da fascinação dos paralelos que ele constrói com outras obras.

e veja que sou um entusiasta dessas estruturas intertextuais explícitas, mas me parece que esse jogo do Ulysses mais tem afastado leitores normais que atraído pervertidos com taras por formas e estruturas narrativas tipo eu. dada essa condição, separo minhas impressões.

(sem falar que isso me dará tempo de ler a Odisseia ao mesmo tempo - não AO MESMO TEMPO, mas uma no intervalo da outra - com todo o respeiro, claro -, interrompendo as leituras e... entendeu, né?)

a Odisseia que releio também é da Penguin-Companhia e não, não estou sendo patrocinado por eles.

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acredito que a leitura da introdução do Ulysses é bastante valiosa, assim como a nota do tradutor.

a introdução traz uma discussão muito interessante sobre Leopold Bloom (o protagonista) como um modelo de andrógino. nada contra os machos jurubebas, mas a noção seria de um homem que se bate menos com o machismo, capaz de relações mais femininas no sentido arquetípico mesmo do termo.

da nota do tradutor pinço algo fundamental para a leitura: o livro é divertido e engraçado, não sério e para poucos escolhidos. existe um problema com o primeiro capítulo (ou com os 3 primeiros capítulos), mas comento a razão dessa minha desconfiança na postagem adequada, coisa que se a musa de Homero permitir, será amanhã.

alguma ajuda da internet: o Ulysses em inglêsum resumão para principiantes, o Ulysses adaptado para HQ e um dos diversos sites com bastante informação sobre a obra.

e para quem diz que não consegue ler o livro, não importa o que faça, vai aqui um audiolivro do Ulysses, em inglês:

 

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A leiturosseia

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Sei que meu primeiro encontro com o Ulisses de James Joyce, foi na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.

o livro tava na lista do Cristovão Tezza como uma das opções para uma apresentação de sua disciplina. eu não fazia a matéria na época - eu não fazia nem Letras na época - mas tinha a lista e a intenção de completá-la.

eu era só um magrão do interior do Paraná que fazia comunicação, gostava muito de ler e morava numa pensão com entusiastas da primeira onda do sertanejo universitário. nesse ano, li mais de 100 livros (sim, eu anotava - ah, as ingênuas e não menos belas flores da juventude...).

mas e o Ulisses?

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sim, o Ulisses. flertei, cheguei junto e levei o livro pra pensão. achei estranho e pouco amigável, apesar de formas sobranceiras e fornidas (tradução do Antonio Houaiss). não consegui terminar.

cheguei até a quarta fase do livro, mas acabou meu continue na bilioteca e tomei um gameover do prazo. deixei pra lá.

na verdade, deixei nada! já tinho lido O retrato do artista quando jovem, aí li Dublinenses, biografias, material teórico. foi a primeira vez que li material em inglês também: li Giacomo Joyce e uns poemas em inglês do irlandês. e Stephen Hero também.

a obsessão estava instaurada. aí, surgiu Luís Bueno (que orientaria meu mestrado anos depois) e sua disciplina para a leitura do Ulisses.

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comprei num sebo a única tradução disponível (mas não única edição) em 2001 e fui pra aula do señor Bueno (a compra do livro foi uma odisseia prum estudante de bolso curto que nem eu, mas para histórias de gente sem dinheiro recomendo Os ratos, do Dyonélio Machado).

e nesse ano foi a primeira vez que li o Ulisses. foi legal, mas eu ainda tava obcecado e precisava ler de novo. mas na tradução do Houaiss seria muita dor e sofrimento (drama queen).

anos depois eu soube que a tradução da Bernardina eu ia sair. eu já era um digno estudante de Letras na época.

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soube daí que um cara que pirava no Joyce tava traduzindo o Ulisses pro seu doutorado. Era o Caetano Galindo. já tinha tido aulas com ele e conversávamos sobre Radiohead, Oasis e Joyce nos corredores da UFPR. pedi que me deixasse ler o seu trabalho.

na época, desempregadao e com muita obsessão, li os 4 primeiros capítulos do Ulisses, de novo. mas dessa vez, cotejado com o original em inglês e com a tradução do Houaiss. e como a do Caetano era melhor.

(essa leitura aí me levou pra página de agardecimentos da edição do Ulysses do Galindo. deveras gentil, esse moço)

mas a edição da Bernadrirna saiu antes. comprei e li. dessa vez, li numas férias em Francisco Beltrão. gostei de novo, mas senti que faltava um pouco da engenhosidade joyceana que eu tinha provado no texto em inglês e na tradução do Galindo. como se o Houaiss tivesse apertado demais o parafuso do rebuscado e esquecido da diversão e a Bernardina fez o versa desse vice.

quando eu soube que o Caetano tinha acabado de traduzir e que ia sair pela Cia. das Letras, fiquei bem feliz. primeiro, porque eu pdoeria indicar uma versão decente do livro pras pessoas. depois porque eu poderia ler o Ulisses de novo!

(o Caetano me disse numa aula que somos sempre macaquinhos egoístas, que usamos o discurso pra se dar bem - esse é mais um exemplo).

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domingo passado comprei o Ulysses, descobri que eu era citado num dos meus livros favoritos e comecei a empreender a leitura da bagaça. e hoje resolvi fazer um diário de leitura aqui no blogue. esse é só o texto de abertura, minhas impressões estão nas postagens adiante.

não se entra num labirinto de palavras destes sem linhas inteiras e frases ocasionais sublinhadas à lápis.nos encontramos lá no último 'Sim'.

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Tenho levado uma vida dupla # 2

tenho levado uma vida dupla.

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e não é essa esquizofrenia light que todos os urbanos têm em suas autoestradas.

uma vida acontece ao lado da outra, sobre a outra, dentro, através.

são duas e simultâneas, compartilham o chão.

(vi que pensava em metades quando anotei sobre a existência dupla antes, mas não, estava errado, são dois inteiros no espaço de um e é isso que faz com que eu não me caiba, com que eu não me sirva.)

estou empaturrado de um eu que é outro.

embora seja também o mesmo.

(sinto pouca terra embaixo do meu pé para que a divida com outro.)

assim, meu problema muda: como me livrar de um de mim, se os dois estão juntos, se os dois só se diferem no que mais importa: eu.

onde está meu solo?

 

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Tenho levado uma vida dupla # 1

tenho levado uma vida dupla.

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apesar da frase um pouco cansada pelo uso impensado, saiba que poetei essas palavras como o mais Cabral dos joões .

o ‘tenho’ é uma posse, é algo que me pertence, a vida. O ‘levado’ é porque sou simples forma a pipocar inconstante e sem rumo. O ‘uma’ é porque a ‘vida’, mesmo única, é ‘dupla’, criado um interessante paradoxo textual.

quero dizer concreticamente que fui impulsionado a essa duplicidade vital, que é a minha. Não pude agir, só reagir. E em dobro.

portanto, tenho levado uma vida dupla, mas não gosto disso.

quero me largar da vida dupla, mas só há uma saída. ou melhor tem de haver uma só saída e não mais duas: o autoassassinato de minha meia-vida.

ou quem sabe tomada de posse desse território. mas como me matar e me manter vivo?

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Tumblerando

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abri dois Tumblrs: um sobre os filmes que assisti, que se chama o Paradiso é bem bacana e o outro sobre os quadrinhos que leio, o Entre um quadro e outro.

pra quem não sabe, tumblr é um blogue ainda mais simplificado com suores de rede social.

como não me contenho, acabo incluindo algumas outras coisas, mas tenho feito força pra manter os textos mais curtos e pincelados. desse modo, este espaço aqui vai ter textos maiores enquanto lá vai umas pitadas dessas coisas. e pode ser que eu use coisas de lá como fonte pra algo aqui.

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O lado Obladi-obladá

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a pior música dos Beatles.

embora, pra  mim, a suada de brega And I love her seja pior. mas partamos dum certo consenso beatlezento de que Ob-la-di ob-la-da é a pior música dos Beatles.

mas peraí: Ob-la-di ob-la-da não é exatamente ruim. é possível cantar junto, pular e ser feliz por 3 minutos e 8 segundos. claro, ela pode trazer bons momentos, mas nunca vai deixar de ser ob-la-di ob-la-da.

é tipo o seu amigo que come de boca aberta. não é legal, mas ele conta boas piadas de estética enquanto come. toda a filosofia envolta em feijão, arroz e alface. não esvazia as afirmações, pelo contrário, as preenche de grãos mastigados.

ou seja, é ruim, mas você se lembra de algo bom e se bobear já canta a música no ônibus da volta pra casa.

não há dúvida, ob-la-di ob-la-da tem seu garbo.

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mas continua ruim. é indissociável desta canção ser boa e ao mesmo tempo boba. e isso a torna a música mais humana dos Beatles.

nós temos isso: sabemos ser batutas e, exatamente por isso, somos também intratáveis e misteriosos vilões. nós somos obladi-obladazados.

carregamos um afinado e harmônico lado obladi-obladá, que renegamos ao fundo de nós. é preciso entender essa letra, e decorar essa melodia, é preciso subir no palco e encarar a plateia.

eu nunca confronteim inha parte obladi-obladá, mas já assumo a diversão que ela proporciona. foi divertido cantar alto no meio do show do Macca ano passado: "laifi gouzon-bra-lalalalalaifi gouzon".

afinal, a vida segue e é preciso engrandecer o coro.

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O espaço do lado avesso com etiqueta aparecendo

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funciona assim:

imagina que aí dentro é um espaço. aos poucos, isso vai sendo ocupado, algumas vezes preenchido, outras, expandido.

tem um mini-você jogando pra dentro ideias, cores, referências, expectativas e tinta acrilíca. e você, quase sabe o que o miúdo-você faz, ou se ele é afeito a estantes, bebe chá inglês, gosta de fanta uva, Beatles Versus Stones, coisa e tal.

ele e você (tem diferença?) podem não falar sobre isso, recalcar, dobrar e esconder dentro do sapato, mas sabe que tá lá. ou aí.

peraí, esquece você e sua maquete.

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se apega nessa massa. às vezes uma ética cai dentro de um balde e vira e um belo bolo de sinapses. 

mas

(agora falo de mim, entre se quiser se sentar no teto)

tem um espaço-entre dentro desse espaço aqui.

de um lado e de outro, ambos acontecimentos beijam o vazio na tentativa desesperada de se tocarem. pois se houver contato, haverá a chance, haverá a música, haverá o ponto e vírgula, haverá enfim a satisfação.

hoje, eu - de braços abertos - sou a distância que há entre o quase e o talvez aqui dentro.

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